O ANTI-HERÓI E A URGÊNCIA NECESSÁRIA

A superação do período lullo-petista através do impeachment de Dilma oferece ao Brasil dar um passo para trás. Como em Itamar, Temer é o anti-herói que assume o país em urgência urgentíssima e isso é muito bom para o país.

Itiberê Muarrek | 17.05.2016

Temer é nosso passo para trás, como foi um passo para trás o governo Itamar - para mim, o melhor governo pós-redemocratização, um governo de urgência, sem promessas de campanha e ministérios com notáveis personalidades. Tal como Itamar, Temer não foi eleito diretamente e, portanto, não entra no governo "devendo nada a ninguém", exceto a toda população do país, onde terá que trabalhar para consertar uma estrutura destruída por populismo e incompetência.

Como com Itamar, Temer terá que "convencer" a população e os principais agentes sociais, políticos e econômicos, trabalhando para recuperar o país do descontrole fiscal, para recuperar a capacidade de investimento e, logo, muito rapidamente, recuperar a capacidade de crescimento econômico e estancar o desemprego crescente que já está em taxa crítica. Não obstante, além de medidas “nada populistas”, Temer terá que desenvolver a autonomia das instituições do judiciário e, não menos importante, manter as políticas de inclusão social ampliando-as se possível.

House of Brasília

Como com Itamar, onde praticamente todos os partidos participaram da queda de Collor e entraram no governo - exceto o eterno birrão e autoritário PT, que lutou para derrubar e depois fez bico e retirou-se, expulsando Luiza Erundina de seus quadros por ela ter aceito o desafio de recuperar o país -, Temer recebe a maioria de apoio político e partidária para atuar na recuperação do país tendo possibilidade de escolher quadros para além de um projeto político-partidário específico.

Temer, como Itamar, será um tampão que terá pouco tempo para lutar contra a pecha de oportunista político e mostrar-se como oportuno político que deu ao país estabilidade política, econômica e social. Não há amores ou idolatria por Temer, não há nem risco de sua figura político ultrapassar os limites que ele mesmo criou para si ao longo de sua trajetória política.

Temer, como Itamar, não possui as qualidades e nem os defeitos dos políticos com liderança popular, não comove as massas, nem os coxinhas e nem os mortadelas, Temer é uma peça política de bastidor, partidário, do PMBD que possui capilaridade e aliança com todos os demais partidos de todo o Brasil e, portanto, condições de agrupar as diferenças em uma mesma peça de governo - um patchwork conveniente para o momento.

Como em Itamar, o país necessita urgentemente de estabilidade econômica, fiscal, de um Plano Real recuperado. Itamar em seu governo proporcionou a criação do Plano Real, só com a situação crítica do país e um governante "não eleito" e sem "compromisso partidário" isso foi possível. Temer tem hoje o papel de recuperar o Plano Real destruído pelo sonho lullo-petista de destruir todo e qualquer legado de FHC – o pai bastardo do Plano Real, o pai legítimo foi Itamar.

Como em Collor, o lullo-petismo se fez acima das tradicionais relações seculares que a Corte patrimonialista brasileira cultuava e, por ir além ao recriar para si seu próprio uma estrutura própria de governo subterrâneo, o lullo-petismo superou a destruição collorida. Talvez esse seja o maior legado do lullo-petismo, ao tentar criar uma estrutura própria de poder, subterrânea, fez-se necessário ser destruído e arrasta consigo toda a tradição secular dos vícios do poder tradicional da Corte Federal do Brasil...

A novidade que desfaz as semelhanças do período Collor-Itamar com Lulla-Temer é que tem uma Dilma no caminho.

Dilma foi a promotora da grande mudança que o páis passa e ainda passará. Dilma foi a anulação absoluta do jogo político tradicional. Dilma foi a não-governanta ! Dilma jamais governou o páis seguindo a lógica histórica e ao se suspender das questões reais, proporcionou que os agentes políticos dos 3 poderes atuassem autonomamente em seus princípios e cada qual atuando com seus interdependentes privados, estatais, sindicais e não-governamentais de acordo com sesu próprios interesses.

Dilma, desprecavida e arrogante, rodeada de aspones e lambe-botas por todo lado, virulenta e pouco afeita a reconhecer seus próprios limites e as virtudes de seus colaboradores, caiu na própria armadilha que pensava ser brilhante: deixaria a Lava-Jato desenvolver-se e levar todos ao seu redor, ela não seria atingida, não haveria oposição e nem força institucional para estourar a barragem que protegia seu nome. Mas, a crise econômica atingiu todas as classes sociais, a Lava-Jato encarcerou empreiteiros e chegou até ela e, por fim, as redes sociais organizaram a pressão popular que estouraria sua barragem eleitoral.

Dilma criou a grande oportunidade de transformação do país ao que produziu dois fatores: primeiro, faliu as contas públicas, segundo, gerou uma condição de ganha-perde em todas as relações públicas e públicas-privadas.... Hoje, qualquer ganho de qualquer unidade de negócio público ou privado gera imediatamente uma perda na outra ponta ... sem superávit, pior, em economia em queda, isso significa que alguém vai tirar de alguém, daí a autofagia completa e absoluta do governo.

Imagine você, Novas Eleições Gerais !

Imagine você que candidato e grupo político se elegeria com um discurso eleitoral com as questões que seguem:

- Diminuir gastos públicos

- Eliminar obrigatoriedade do Imposto Sindical

- Propor que todas as instituições religiosas, de esportes entre outros paguem Impostos

- Eliminar Fundo Partidário

- Eliminar FORO privilegiado

- Reforma da Previdência

- Eliminar as aposentadorias compulsórias e seus benefícios vitalícios para governadores entre outros

- Eliminar benefícios disfarçados do Judiciário

- Eliminação de 80% ou 90% dos cargos comissionados

- Ajustar e ampliar inclusão social

- Ajustar dívida pública e baixar juros a níveis que não sufoquem a população

- Mudar modelo de escolha dos juízes do STF

- Autonomia dos poderes, em especial, para o MP e a PF

- Impor Ficha-Limpa e afastamento imediato a políticos envolvidos acusações pelo MP ou PF

- Impor condição de criação de cidades e estados apenas às que consigam sustentar-se

- Eliminar o Estado do Distrito Federal, deixando-a como um "Distrito Especial" que faz parte do Estado de Goiás, eliminando seus senadores e deputados

- Eliminar benefícios do Exército, bem como a desmilitarização da PM

Imaginou o leitor que candidato conseguiria se eleger com uma plataforma dessas ? Imaginou o clima de acusações e proselitismo a que seríamos levados ? Imaginou a quantidade de violência entre os correligionários dos partidos políticos ?

Certamente, não será Temer que proporcionará a solução a todas as medidas citadas acima, mas, política é processo, processo de mudanças lentas e graduais de costumes, seguidas de atualizações constitucionais. Temer, certamente, governará por cerca de 2 anos restabelecendo a estabilidade econômica e a confiança da população na classe política, portanto, diminuindo o tamanho do Estado Patrimonialista e de Compadrio, melhorando processos de inclusão social e aprimorando relações de Justiça Social ampliando ação e eficiência do MP e do Judicário em geral.

Com Temer, damos um passo atrás no modelo bolivariano dos poderes e proporcionamos condições do Judiciário se estabelecer como fonte de poder autônomo e que trabalha com isenção entre todos os cidadãos. Com Temer, damos um passo atrás na loucura de confiar o país a um modelo absoluto de liberalismo ou socialismo, ambos ridículos num país patrimonialista e de compadrio. Com Temer, há de se promover um liberalismo econômico com valorização da inclusão social simultâneamente, via combate ao compadrio e controle das tradicionais forças políticas-partidárias que, agora, ou abraçam Temer ou somem nas próximas eleições.

Com Temer, damos um passo atrás no confronto de sistemas políticos anacrônicos que geraram o ganha-perde social pelo fato que só haverá ganha-ganha social quando o sistema político e econômico do Estado brasileiro sofrer as reformas que eliminem a cultura da corte e privilegie a da produção e do trabalho. Não há escolha para Temer, pior que está pode ficar e sua única saída para construir uma imagem positiva será de contentar coxinhas e mortadelas que desejam Justiça para todos e condições de trabalho digno. Com Temer, coxinhas e mortadelas extra-estatais, terão que ser contemplados em suas idéias de modernidade, menos Estado controlador e gastador e mais Estado apoiador de medidas inclusivas que proporcionem ensino apropriado para que mais pessoas colaborem na Economia criativa e produtiva.

Sem Temer, com eleições gerais imediatas, teríamos(teremos) um país em guerra onde cada lado vai querer ganhá-la excluindo a realidade do outro lado, teremos(teríamos) um certo e reto ganha-perde e a manutenção do estado belicoso e violento que vivemos. Sem Temer, mantendo Dilma Presidente, a imobilização política e econômica só faria a economia aprofundar-se mais. Dilma não possuía mais condições políticas para governar, seja pela sua inaptidão natural ou pelos sucessivos erros econômicos que projetou e implementou. Com Temer, o tampão, o intermediário, como em Itamar, teremos um governo que só funcionará com ganha-ganha – excluindo dessa equação, claro, os “privilegiados da Corte”.

Temer, como foi com Itamar, tem que assumir com um Ministério respeitoso, político mas capacitado, que aja de imediato para tampar os buracos das contas públicas, indique respeito aos investidores, respeite e melhore os planos de inclusão social, que mantenha e promova o Judiciário atuando contra os abusos dos poderes públicos e empresariais compadres e, não menos importante, que indique claramente que seu papel extingue-se nesse período intermediário.

A solução Temer, como foi com Itamar, não é o melhor dos mundos, mas é a única solução viável para o país restabelecer condições de governabilidade e conquistar alguma paz social através de uma política de ganha-ganha que contemple todos os cidadãos brasileiros.

O passo para trás com Temer é a possibilidade do Estado brasileiro se recompor, voltar a ficar ereto, reconstruir-se em equilíbrio, conquistar massa social e econômica, pensar seu todo para agir com um país... Um passo atrás, por favor, respire fundo, mantenha-se em alerta manifestando sua opinião, aqueça suas esperanças, pois o país tem pressa de saltar à frente e a corrida começa imediatamente neste período transitório.